A Falência — Júlia Lopes de Almeida

Aquela conquista de fortuna, feita de relance, perturbava-o, desmerecia o brilho das suas riquezas, ajuntadas dia a dia na canseira do trabalho. A vida tem ironias: teria ele sido um tolo?

Talvez, e para se certificar reviu a sua vida no Rio, desde simples caixeiro, quase analfabeto, com a cabeça raspada, a jaqueta ruça e os sapatões barulhentos.

Tinha ainda fresco na memória o dia do desembarque — estava um calor! — e de como depois rolara aos pontapés, malvestido, mal alimentado, com saudades da broa negra, das sovas da mãe e das caçadas aos grilos pelas charnecas do seu lugar.

Pouco a pouco outros grilos cantaram aos seus ouvidos de ambicioso. O som do dinheiro é música; viera para o ganhar, atirou-se ao seu destino, tolerando todas as opressões, dobrando-se a todas as exigências brutais, numa resignação de cachorro.

Assim correram anos, dormindo em esteiras infectas, molhando de lágrimas o travesseiro sem fronha, até que o seu mealheiro se foi enchendo, enchendo avaramente.

Aquela infância de degredo era agora o seu triunfo. Vinha de longe a sua paixão pelo dinheiro; levado por ela, não conhecera outra na mocidade. Todo o seu tempo, toda a sua vida tinham sido consagrados ao negócio. O negócio era o seu sonho de noite, a sua esperança de dia, o ideal a que atirava a sua alma de adolescente e de moço.

Não podia explicar, como, só pelo atrito com pessoas mais cultivadas, ele fora perdendo, aos poucos, a grossa ignorância de que viera adornado. A letra desenvolveu-se, tornou-se firme, e a sua tendência para contas fez prodígios, aguçada com o sentido na verificação de lucros. Relendo cifras, escrevendo cartas, formulando projetos, e observando atentamente o seu trabalho e o alheio, tornara-se um negociante conhecedor do que tinha sob as mãos, e um homem limpo, a quem a sociedade recebia bem.

Não pudera ser menino, não soubera ser moço, dera-se todo à deusa da fortuna, sem perceber que lhe sacrificava a melhor parte da vida. Para ele, o Brasil era o balcão, era o armazém atulhado, onde o esforço de cada indivíduo tem o seu prêmio.

Fora do comércio não havia nada que lhe merecesse o desvio de um olhar… Tempos de amargura e de esperança, aqueles!

Título: A Falência
Autor: Júlia Lopes de Almeida
Data Original de Publicação: 1901
Data de Publicação do eBook: 2022
Imagem da Capa: Rua do Ouvidor, Rio de Janeiro, 1906. Fotografia de Marc Ferrez (Acervo do Instituto Moreira Salles)
Revisão: Ricardo Lourenço e Cláudia Amorim
ISBN: 978-989-8698-73-5
Texto-Fonte: A Falência. Rio de Janeiro: Oficina de Obras de A Tribuna, 1901.

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