Projecto Adamastor

«Porquê Ler os Clássicos?» – Entrevista a Paula Moura Pinheiro

Porque Ler os Clássicos

Porquê ler os clássicos da literatura portuguesa?
Porque mais que parte da nossa História, os Clássicos Portugueses são parte da nossa identidade. Quando hoje lemos uma das Novelas do Minho de Camilo Castelo-Branco vemos como era a vida no Minho, há quase 200 anos, pelos olhos do escritor. E é sabido que Camilo Castelo-Branco fixou uma série de arquétipos portugueses que continuam a fazer parte do nosso imaginário. Ora, muito do que somos é também aquilo que imaginamos ser e aquilo que imaginamos que éramos no passado.
 
A definição de clássico está longe de ser consensual. Afinal, o que torna uma obra literária um clássico?
A frescura com que sobrevive ao tempo. A relevância do ponto de vista, do tema, da abordagem. A perfeição da forma. Uma espécie de actualidade intemporal. «Anna Karénina» continua um romance apaixonante. Para mim, que o li pela primeira vez há 25 anos, e para a minha filha que o leu agora, aos 18 anos. Um Clássico «fala-nos ao ouvido», diz-nos coisas que nós sentimos serem «verdadeiras».
 
Eça e Pessoa continuam a ser bastante lidos, mas nem todos tiveram tal sorte. Que autor português considera que foi imerecidamente votado ao esquecimento?
Há vários, mas gosto muito de Teixeira-Gomes e creio que pouca gente o leu. «Gente Singular» é dos textos mais maravilhosos (e hilariantes) da grande literatura portuguesa.
 
«Prognósticos só no final do jogo», mas que obra contemporânea lhe parece capaz de vencer o teste do tempo e vir a integrar o cânone literário português?
Não consigo dizer. Aguardemos a depuração do tempo.
 
Os imperativos económicos têm vindo a exercer crescente domínio sobre a nossa sociedade, com impacto bastante negativo na divulgação cultural. Será a cultura uma espécie em vias de extinção em Portugal ou reservada apenas a uma elite?
A «cultura», no sentido a que alude, foi sempre para o consumo de uma minoria. Foi assim no passado e é assim hoje. Não é politicamente correcto dizê-lo, mas é verdade. O facto de nunca tantos terem sido alfabetizados (no mundo Ocidental em geral e em Portugal em particular) não quer dizer que as pessoas passem automaticamente a interessar-se pela dramaturgia de Beckett ou pela música de Mahler. Ser alfabetizado, bem alfabetizado, é condição necessária mas não suficiente para se ser um fruidor dos objectos culturais mais exigentes. A razão é essa mesma: são objectos exigentes. Isto não é grave. Desde que haja acesso garantido para quem se interessa de facto por poesia ou por escultura ou por ópera estamos bem. Claro que quando há menos dinheiro há menos condições de acesso. Mas aflige-me muito mais que não haja condições de acesso a bons cuidados de Saúde. Num mundo perfeito, todos estremeceríamos com a poesia de Ruy Belo…
 

Paula Moura Pinheiro é jornalista. É licenciada em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa e pós-graduada em Direito Comunitário pelo Instituto Europeu da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
 
Na imprensa, trabalhou como repórter, entrevistadora e cronista; na televisão e na rádio como autora, editora e apresentadora de programas. Expresso, Marie Claire, Independente, Grande Reportagem, Rádio Comercial e Rádio Paris Lisboa, SIC, RTP1 e RTP2 são alguns dos órgãos por onde passou. «Sexo Forte», «O Pecado Mora Aqui», «O Senhor que se Segue», «Livres e Iguais», «GLX» e «Câmara Clara» são alguns dos programas que dirigiu e apresentou.
 
Responsável pelo «Guia de Leitura 2003» do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, fez comunidades de leitores um pouco por todo o país; como membro das A4, realizou durante anos com a Fundação Calouste Gulbenkian «Os Clássicos». Fez o programa cultural da Feira do Livro de Lisboa em 2004 e em 2005 e publicou «Portugal no Futuro da Europa», um livro sobre a primeira versão do Tratado Constitucional Europeu. Em 2002, publicou o seu primeiro livro, «27/08», em 2006 «Estória da Pré-História do Chapitô», uma biografia de Teresa Ricou, e em 2010, «Viagem de Regresso». Entre 2006 e 2012, foi subdirectora da RTP2.
 
Actualmente, o seu programa «Visita Guiada» está em repetição no Canal 2 da RTP. Um programa que faz uma aproximação à História de Portugal através de peças do nosso património cultural, com uma abordagem inovadora: é transmitido na rádio, Antena1, e na televisão, na RTP2. É o mesmo programa em versões diferentes, adaptadas aos dois meios.