«Porquê Ler os Clássicos?» – Entrevista a Mário de Carvalho

Porque Ler os Clássicos

Porquê ler os clássicos da literatura portuguesa?
Os clássicos são os livros exemplares que produzem em nós dois efeitos que um autor, também clássico, designou por ‘prodesse’ (ser útil) e ‘delectare’ (dar prazer). Neste ‘prodesse’ incluímos o melhor conhecimento dos nossos contemporâneos (somos todos contemporâneos, porque a História é muito curta); no ‘delectare’, o gosto de acompanhar as combinações surpreendentes que os melhores autores souberam explorar na nossa língua.
 
A definição de clássico está longe de ser consensual. Afinal, o que torna uma obra literária um clássico?
Clássico pode ter dois sentidos. O etimológico que remete para um conceito de excelência, elevação e exemplaridade. E aqui, encontramo-nos próximos da ideia de cânone. E um, mais corrente, que designa qualquer obra literária do passado, independentemente da sua qualidade. Estas merecem também ser preservadas e divulgadas. Há sempre um olhar a que podem fazer falta.
 
Eça e Pessoa continuam a ser bastante lidos, mas nem todos tiveram tal sorte. Que autor português considera que foi imerecidamente votado ao esquecimento?
José Rodrigues Miguéis. Mas cuidado, é melhor falarmos em obras do que em autores, para não cairmos numa fácil ‘falácia autoral’. Mas acha mesmo que Eça continua a ser bastante lido? Em 1947 era possível a um jornal publicar um inquérito perguntando ‘O que pensa do conselheiro Acácio?’ Experimente fazer a mesma pergunta hoje.
 
«Prognósticos só no final do jogo», mas que obra contemporânea lhe parece capaz de vencer o teste do tempo e vir a integrar o cânone literário português?
‘A Casa Grande de Romarigães’, creio.
 
«Não estou nada preocupado com o futuro do livro», afirmou num debate realizado na Feira do Livro de Lisboa 2010 («Os Livros do Futuro / O Futuro dos Livros», moderado por Carlos Vaz Marques). Tendo em conta o desenvolvimento do mercado digital nos últimos anos, mantém a mesma opinião?
Um livro digital não deixa de ser um livro. Já os tivemos em tabuinhas de barro, em papiros, em pergaminho, em placas de madeira, em folhas de palmeira e por aí fora. Por que não em formato digital? A ‘vexata quaestio’ costuma ser a do futuro do romance, ou mesmo da literatura. Anda a ser arrastada pelo menos desde o princípio do século XX. É já, pois, uma questão com uma certa idade. Tenho a impressão de que ela (a questão) vai sobreviver por mais umas dezenas de anos.
 

De origem alentejana, Mário Costa Martins de Carvalho nasceu em Lisboa, na maternidade Alfredo da Costa em Setembro de 1944.
 
No final dos anos setenta liga-se ao grupo «Quatro Elementos Editores», animado por Fernando Guerreiro. Em 1981 publica «Contos da Sétima Esfera», «Casos do Beco das Sardinheiras» e em 1982, «O Livro Grande de Tebas, Navio e «Mariana». Daí por diante, vem publicando com regularidade em vários géneros.
 
Durante alguns anos, conciliou o exercício da advocacia com a escrita que se estendeu ao teatro, ao cinema e à crónica. Em 1997, por ocasião da atribuição do prémio Pégaso a «Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde» foi-lhe propiciado um périplo pelos Estados Unidos e Canadá, onde participou no Festival de Harborfront. Apesar da sua conhecida renitência a viajar, tem participado, que se lembre, no Salon du Livre de Paris, 2000, Expolangues (1994), Ville Gillet de Lyon, Carrefours de la literature de Bordéus, Edimburgh Book Festival (1998), Feira do Livro de Frankfurt (dois anos), Encontros de Barcelona, Jounées Litteraires de Mondorf , Festival des Migrations des Cultures et de la Citoyenneté do Luxemburgo, Feira do Livro Internacional de Paraty, FLIP, em Parati, Brasil, e outros eventos remotos…
 
Foi vogal da Associação Portuguesa de Escritores, durante as presidências de David Mourão-Ferreira e Óscar Lopes.
 
Orientou pós-graduações em escrita de teatro e diversas oficinas de escrita de ficção e foi professor convidado da Escola Superior de Teatro e Cinema e da Escola Superior de Comunicação Social durante vários anos.
 
Casado com Maria Helena Taborda Duarte, é pai da escritora Rita Taborda Duarte e da jornalista Ana Margarida de Carvalho.