«Porquê Ler os Clássicos?» – Entrevista a Madalena Nogueira dos Santos

Porque Ler os Clássicos

Porquê ler os clássicos da literatura portuguesa?
Na leitura do clássico assumimos a visão de uma mente que viveu outras experiências, outros dilemas e, sendo esta a sua característica distinta, outra época. O desprendimento do nosso dia-a-dia é radical, mesmo que a história em si ironicamente reporte as mesmas e actuais dificuldades e decadências da Humanidade. Mesmo que se reconheça a realidade narrada, ela é absorvida por uma pele diferente, graças à mestria de levar o leitor para outra dimensão… idêntica… e singular.
 
Os que sobrevivem ao tempo e ao esquecimento são os clássicos, por isso, benze-nos a sorte de usar, como transporte para aquele desprendimento, o melhor instrumento, o mais perene e bem conseguido – eis aquilo que se pode dizer para caracterizar um clássico sem demasiada discórdia.
 
Há, enfim, inúmeras razões inominadas para além da “mera” fruição da trama escrita que se concretizam em sensações, conhecimento e dilatação de horizontes. Estas últimas são o âmago de um livro tão bom que não arreda pé das estantes; para além das cores, há textura e profundidade, condimentos que só alguns escritores sabem lançar (mas cuja técnica não sabem ensinar) de modo a conquistar várias gerações.
 
Absorvê-lo quando é literatura portuguesa reproduz a alma lusitana em nós, nós num mundo a descaracterizar-se. Por exemplo, permite ao leitor-autor testar a sua voz a partir das suas raízes, em vez de se inspirar noutras culturas e não ser verdadeiro nem com os estrangeiros nem consigo mesmo.
 
A definição de clássico está longe de ser consensual. Afinal, o que torna uma obra literária um clássico?
A sobrevivência ao passar do tempo é o elemento mais consensual nessa definição. Com a distância de muitos anos conseguimos mais ou menos discernir o que é clássico. Fico curiosa quando tento imaginar o que os nossos sucessores dirão perante a produção literária inigualável da última era. Terão um desafio substancialmente maior do que o nosso, pois muita boa literatura poderá não se estabelecer na memória por falta de, imagine-se, logística!
 
Não me incomoda de sobremaneira a falta de solução cirúrgica neste tema. Enquanto for difícil definir e etiquetar a arte, esta nos encantará com o seu espírito indomável.
 
Eça e Pessoa continuam a ser bastante lidos, mas nem todos tiveram tal sorte. Que autor português considera que foi imerecidamente votado ao esquecimento?
(Bastante lidos ou bastante falados?)
 
O nome que me ocorre tem mais de impressivo do que de objectivo. É mais consequência de uma vivência do que de uma visão crítica do panorama português: Manuel Laranjeira, médico, poeta e dramaturgo, de vida curta. Não o conhecia até ao dia em que entrei na escola de Espinho que o homenageia e cujo nome também veio à baila noutra ocasião de teor literário, já estava eu consciente da sua obra. Não está esquecido, mas, em comparação com Eça e Pessoa, (sobre)vive essencialmente da ferocidade de pequenos focos de tributo.
 
Enquanto a minha experiência de leitora não se cruzar com aquele(a) que se sobreporia sem hesitações a esse empirismo – se bem que não desejo essa sina, a de ser votado ao esquecimento, a qualquer autor português que (ainda) não li, pois o autor pretende tocar a imortalidade –, prefiro nomear este autor que me mostrou que os que não merecem o esquecimento são devotados nem que seja por um punhado de resistentes às tendências e às facilidades.
 
«Prognósticos só no final do jogo», mas que obra contemporânea lhe parece capaz de vencer o teste do tempo e vir a integrar o cânone literário português?
Defendo que os cânones se formulam com a distância de que o que é contemporâneo não desfruta. Não sei o que os olhos futuros vão procurar no nosso presente, se a experiência técnica e tecnológica mudará definitivamente o perfil humano.
 
Considera que o mercado do livro digital, em alternativa à publicação exclusiva em formato impresso, pode vir a tornar-se numa plataforma relevante e sustentável para a divulgação de novos autores em Portugal?
O público que procura o livro digital tem uma grande tradição no formato impresso e tal fidelidade ao livro que qualquer forma de transmissão o satisfaz. É um público que lê e que é dinâmico, logo, no meio dessa sofreguidão estará sem arreios disponível para descobrir os novos autores.
 
Se está disponível para os portugueses, a resposta é dada com dilemas. Está lançada uma moda que denegrece o que é facilmente divulgável (o mundo virtual é condescendente) e o público português, ou seja, quem verdadeiramente move o mercado do livro português, é muito desconfiado e menos aventureiro nestas lides do que as suas raízes de sal prenunciam.
 
Ainda assim, reconheço que os custos reduzidos do livro digital assumem uma preponderância inevitável na investida dos novos autores em nome da sua arte, pelo que, por insistência e algum engenho que ainda não foi concebido, saberão domar essa relevância e sustentabilidade.

Madalena Nogueira dos Santos, natural da Maia, nasceu em Maio de 1987, licenciou-se na Faculdade de Direito da Universidade do Porto, frequentou o Mestrado em Direito da Empresa e Negócios na Faculdade de Direito da Universidade Católica do Porto e é Advogada. E como livros significam-lhe muito, fundou e coordena hoje a Biblioteca de Nogueira da Maia, cuja abertura ao público está prevista para os próximos anos, com o apoio da Junta de Freguesia e muitas contribuições particulares.
 
Os seus primeiros esboços de narrativa longa desenvolveram um grupo de personagens que vagueava numa dimensão paralela onde a magia reinava lado a lado com seres imaginários, mas, por volta dos 15 anos, decidiu abandonar o projecto que já contava com centenas de páginas para se dedicar a uma ideia que discretamente lhe encantara a imaginação: as Terras de Corza.
 
Durante dois anos, construiu a intriga do primeiro livro, que, assim que ficou completo, descansou numa estante durante quase um ano. A segunda obra da mesma saga já ocupava as suas horas vagas, quando, por sugestão da família, Madalena Nogueira dos Santos enviou o primeiro original às Edições Gailivro, em busca de uma opinião profissional para corrigir os seus erros e evoluir na expressão escrita. Para sua surpresa, em três meses, a Editora propôs a publicação d’O Décimo Terceiro Poder, cujo lançamento foi celebrado em 2006. Após dois anos e meio de trabalho, A Coroa de Sangue surgiu como o segundo volume da tetralogia e, em 2007, foi editado. Em 2008, a Editora juntou-se com Grupo Leya, adiando o terceiro lançamento para o ano seguinte; em Junho de 2009, por fim, o livro As Tribos do Sul foi publicado.
 
O quarto e último volume, com o título Os Doze Reinos, chegou às livrarias em Julho de 2010, tendo entrado directamente no TOP 10 Os Mais Vendidos Fantástico & FC da FNAC, onde se manteve por quatro semanas consecutivas, para, logo a seguir, ser imitado pela segunda obra da saga, A Coroa de Sangue.
 
Em Agosto de 2011, a 1001 Mundos (colecção onde se encontra a saga) anunciou que deixou de fazer parte da Gailivro, passando a apresentar-se sob a chancela da ASA.
 
Os quatro livros apresentam enredos distintos, de leitura independente da ordem de publicação, que se reúnem numa saga por tudo se passar nas Terras de Corza, um conjunto de fictício de reinos à imagem da Europa central e do sul, na Idade Média (O Décimo Terceiro Poder), no fim do Absolutismo (A Coroa de Sangue) e na Industrialização (As Tribos do Sul), ficando para último o regresso às origens com traços pré-romanos (Os Doze Reinos). Os leitores facilmente detectam os traços de fantasia épica, sem magia nem seres imaginários, e de uma efabulação geopolítica cheia de viagens exóticas e intriga.
 
Actualmente, Madalena está a preparar o próximo livro, com publicação prevista para 2014.