«Porquê Ler os Clássicos?» – Entrevista a João Barreiros

Porque Ler os Clássicos

Porquê ler os clássicos da literatura portuguesa?
Boa pergunta. Os «clássicos» existem. Mas será que alguém ainda os lê? Pelo menos os títulos servem para salvar o povo de situações embaraçosas quando são entrevistados na rua. «A senhora lê autores portugueses?» R: «Aaaahh…sim…sim…claro…Eça de Queirós…Camões…claro…» Mas, se lhes formos a perguntar quais os livros do Eça que realmente leu, surge então um vazio horrível e um silêncio profundo. A verdade é que ninguém lê os clássicos portugueses. Ninguém. Nem os alunos das Escolas lêem Os Maias. Limitam-se aos resumos da EA. No meu tempo, quando frequentava a escolinha risonha e franca, que fazíamos nós com Os Lusíadas? Tínhamos de decompor em parcelas as orações do Primeiro Canto, até ao enjoo final. Aah, e a secção dedicada à Ilha dos Amores, estava agrafada pela Mestra, não fossem os pirralhos ficarem com as hormonas agitadas com tanta mamoca posta ao léu. Vivi um sistema educacional imbuído do mais puro horror. Tive de ler A Cidade e as Serras, o romance mais tecnofóbico do Eça. E eu que já sonhava então com naves espaciais, imaginar alguém enfiar-se em Tormes para o resto da vida a encher o papo com arroz de favas ao lado de uma moçoila de buço incapaz de dar uma para a caixa, era, para mim, a visão mais subtil do Inferno. De súbito, descobri no Eça uma atenuante: escrevera um romance fantástico de aventuras, na África profunda, chamado As Minas de Salomão. Uau. Eis o efeito redentor dos clássicos. Só mais tarde percebi que as tais Minas eram do Ridder Haggard, não do Eça. Já tentaram ler a Pátria Portuguesa do Dantas? É de rir até às lágrimas tão mau aquilo é. E o Herculano? Infodump atrás de infodump como se não soubesse como avançar na narrativa. Camilo? Poupem-me. Julio Diniz? Mas alguém, neste universo conhecido, alguém que tenha na estante de sua casa as maviosas lombadas destes gloriosos «clássicos» vai retirar um tomo desta linha interminável, e ler, pela noite fora, entusiasmado e com o coração a bater, A Morgadinha dos Canaviais? Para mim, ler estes clássicos da literatura portuguesa, equivalem aos «cinco minutos do ódio» por que tinha de passar o Winston Smith no proverbial 1984. Odiar os clássicos portugueses faz bem à vesícula. Mas não fazer outra coisa senão ler clássicos portugueses torna-se demasiado tóxico. Para mim, os tais clássicos existem num cantinho escuro das estantes lusas, principalmente nas falsas bibliotecas de quem sofre de iliteracia aguda. Deixá-los lá estar.
 
A definição de clássico está longe de ser consensual. Afinal, o que torna uma obra literária um clássico?
Em todos os géneros, existem obras que poderiam ser consideradas «clássicos». Para mim, «clássicos» são aquelas que conseguiram resistir à moinha do tempo. Que são citadas nos rodapés dos estudos literários. Nas Enciclopédias temáticas. Obras que vivem na memória colectiva da nossa espécie. Aqueles livros que, sem vergonha, embora sujeitos a um certo «passadismo», conseguiram sobreviver pelo charme, inteligência, inovação, estilo, arrojo a todo o lixo e pretensão doutras obras ditas maiores. Continuamos a ler Poe, Lovecraft, Wells, Blackwood, Stocker. Por muitas que sejam as fragilidades existentes nestas obras, por muito reaccionários que sejam os seus autores, há nelas qualquer coisa que… permanece… que não se deixa morrer…Quais os autores portugueses a escrever hoje em dia, que vão ser «clássicos» nesse futuro electrónico que será o nosso? Fora das pressões do ME, das Editoras, os pimpolhos nossos bisnetos ainda terão de ler a Agustina e o Saramago? Será que alguma vez os leram do princípio ao fim? Infelizmente, no que diz respeito a esses «clássicos» que fizeram o fundamento das nossas vidas, nem tudo são rosas. Há algo terrível que está a acontecer, pelo menos neste nosso género que tão furiosamente defendo. As novas gerações já não conhecem Wells, Verne, Lovecraft, Huxley, Golding, nem sequer pelo nome. Não conhecem e, pior ainda, quando se lhes lembra que estes nomes existem, nem querem conhecer. É para o lado onde dormem melhor.
 
Eça e Pessoa continuam a ser bastante lidos, mas nem todos tiveram tal sorte. Que autor português considera que foi imerecidamente votado ao esquecimento?
O Mário Henrique Leiria, claro. E no teatro o António Patrício (Vide Pedro e Inez). E o Augusto Abelaira (Vide o Nariz de Cleópatra). E na comédia novecentista, o Gervásio Lobato. Alguém se lembra da LISBOA EM CAMISA? Não? Ora aí está. Seria demasiada presunção juntar aqui um tal TERRARIUM de um desconhecido chamado João Barreiros? Ai é? Tarde demais. Já teclei o nome.
 
«Prognósticos só no final do jogo», mas que obra contemporânea lhe parece capaz de vencer o teste do tempo e vir a integrar o cânone literário português?
Sinceramente não consigo dizer. Os ventos da História tudo varrem. Os tempos mudam. O que seria considerado hoje como um virtuoso exercício de estilo, será visto amanhã como a mais insuportável das pimpineiras. O nosso novo século ainda vai no início, e não consigo ler um único autor português com uma gotinha de prazer. O tédio tomba sobre mim como um vasto véu. Vamos deixar correr o marfim, ok? Vamos ver para que lado vão cair as cinzas.
 
Ao contrário do que acontece no estrangeiro, onde géneros antes considerados menores, como o Fantástico ou a Ficção Científica, começam a ter maior reconhecimento, em Portugal continua a predominar a ideia da superioridade da Ficção Literária. Por que razão está este preconceito tão enraizado no nosso país?
Bom, por várias razões. Porque Portugal sempre foi um país que sofreu de iliteracia funcional. Ninguém lê. Ninguém lê por gosto. Ler é coisa de mulher. Ou de mariquinhas. Ou de totós. Por outro lado, porque, após a bota da Inquisição, vivemos muitos e bons anos numa ditadura viscosa, aquela que pregava as alegrias da máscula virilidade para os homens e, para as mulheres, as benesses de ser «dona-de-casa» e boa mãe. Aos domingos devíamos ouvir futebol ou Fado e peregrinar em sofrimento físico até ao abismo conceptual de Fátima. Quem acredita que três pastorinhos sofreram uma epifania concordante com um Sistema Aristotélico do Universo, não quer saber se vida existe em Próxima Centauri. Para essa gente, as estrelas não passam de pontinhos a brilhar no céu. Temos uma população tecnofóbica, com receio de tudo o que seja o futuro, mesmo sem se darem conta de que já vivem nesse futuro. Bom, e depois, para nossa desgraça, temos os ditos «intelectuais» formados por um sistema judaico-cristão que lhes ensinou que toda a literatura que divirta, entusiasme, encante, é algo de profundamente maligno. Para eles, o séc. XX não existiu. A verdadeira literatura terminou com o século XIX. Ora, se a FC, por exemplo, é a verdadeira metáfora deste século que já passou, ela não pode, não deve, ser estudada nos meios académicos mais sérios. «Trivial stuff», diriam eles. E, dito isto, dedicaram-se a criar uma nova geração acéfala de leitores, que mais tarde se transformou em editores, consultores literários, críticos e comentadores. Desenvolveram nas mentes que lhes foram entregues um humanismo pegajoso, feito de lindas palavras, figuras de estilo e estados de alma. O romance não existe, dirão eles. O romance morreu há muito tempo. Viva o pós-modernismo. Recentemente, sofremos outra catástrofe: a literatura de «género» passou a ser considerada como um produto dedicado ao universo infanto-juvenil. Os editores resolveram por isso passar a publicar coisas simples, não muito exigentes, para os pirralhitos, coitados, conseguirem perceber. E como os pirralhitos não percebem peva de ciência, ora tomem lá com mais uma fantasia medieval, onde não são cumpridas as mais básicas regras da evidência positivista. Querem saber mais coisas sobre o Fantástico ou a FC? Emigrem, como diria o outro. Ou aprendam Inglês, Francês, Alemão, Polaco, Espanhol. O Futuro está lá fora e continua a tamborilar à janela. Abram-na, e deixem-no entrar.
 

João Barreiros, licenciado em filosofia e professor do ensino Secundário, nasceu a 31 de Julho de 1952, numa humilde cidade que em breve iria cair na Sombra dos grandes Antigos.
 
Quando se refez do choque, devorou milhares de títulos em todas as línguas a que conseguiu deitar mão, participou na feitura do Grande Ciclo do Filme de FC de 1984 patrocinado pela Cinemateca Portuguesa e Fundação Gulbenkian, escreveu dois vastos artigos para a Enciclopédia (hoje esgotada e objecto de culto para quem a conseguiu comprar).
 
Dirigiu duas efémeras colecções para as Editoras Gradiva (Col. Contacto) e Clássica (Col. Limites) que o público português resolveu esquecer (pior para ele), publicou um vasto romance de quase 600 páginas com a discreta ajuda de Luis Filipe Silva (de seu nome «Terrarium»), precedido por uma colectânea de contos que chegou a perturbar algumas almas mais sensíveis («O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias»).
 
Anos mais tarde dedicou-se à história alternativa («A Verdadeira Invasão dos Marcianos») que mereceu edição espanhola e simpáticas criticas no jornal El País.
 
Em 2006, a editora Livros de Areia dedicou-lhe um chapbook com a publicação de uma das suas novelas «malditas»: «Disney no Céu Entre os Dumbos».