«Eça de Queirós revelado por uma ilustre senhora de sua família (Parte II)», por Conceição Eça de Melo

Eça de Queirós, por Rafael Bordalo Pinheiro

POETAS E ESCRITORES NA INTIMIDADE

Eça de Queirós revelado por uma ilustre senhora de sua família e íntimas relações — a distinta escritora D. Conceição Eça de Melo.

 
Como disse no número antecedente, foi Eça de Queirós transferido de Bristol para Paris.
 
Como escrevo de memória, evocando esta ou aquela recordação, como me vão aparecendo e me saltam dos bicos da pena, não posso dizer a data exacta, mas julgo que seria em 1899.
 
Tinha então só a sua pequena Maria, a filha a quem estremecia.
 
Paris e a sua intensa vida, tão buliçosa, tão empolgante, era-lhe por demais conhecida.
 
Passara na bela cidade grandes estações, vivendo a vida de rapaz despreocupada e alegre. Agora, porém, casado, a sua alta compreensão da vida de família, o seu fino gosto artístico, que em tudo se manifestava, levou-o a escolher casa, não nos bairros mais ruidosos lado a lado com os grandes boulevards, perto dos teatros, dos cercles, das ruas aristocratas onde a vida é mais brilhante e intensa, mas sim às portas de Paris, quase dentro do Bois, na poética Neully, onde outrora vivera Luís Filipe, que de lá se foi, levado pela revolução, para ocupar o trono de S. Luís.
 
Estranho destino das coisas!
 
Luís Filipe, que ali vivia sossegado e feliz, levando a vida patriarcal de um grande fidalgo, bom chefe de família, é arrancado ao seu viver tranquilo, lançado nas lutas da política, que depois o atirarão para o exílio, e o seu palácio, o seu extenso parque, os seus jardins, dos quais tão vaidoso era, cortados e recortados em propriedades, grandes e belas mas em nada semelhantes ao que tinham sido quando reunidas na opulenta habitação da real família dʼOrléans.
 
Desapareceu o grande palácio, e, consequência da época utilitária que a França ia atravessando, os belos prados, as umbrosas matas, os viçosos jardins cederam o passo a magníficos prédios de rendimento.
 
Quase todos eles são edificados tendo por trás grandes jardins, e nesses um ou dois pavilhões cercados por espaços arrelvados esmaltados de flores.
 
Esses pavilhões são muito disputados, pois que cada um deles forma a mais deliciosa vivenda.
 
Foi em um deles, composto de um entresol e dois andares, parecendo emergir de uma corbeille de lilás e rosas, que em 1894 fui encontrar Eça de Queirós.
 
Que vida feliz e cheia de afectos ali passava!…
 
Quando lá fui pela primeira vez, já então, além da sua gentil Maria, tinha os três pequenos, que tão galhardos rapazes hoje são.
 
Nessa poética casa de Neully, passei horas inolvidáveis.
 
Já de longe aquela elegante habitação, com o seu gracioso balcão abrindo em duas escadas para o pequeno jardim tão gentil e coquet, com as suas gelosias e nas consolas das janelas grandes vasos, sempre floridos, parecia sorrir-nos e acolher-nos com afecto.
 
Quando se transpunha o gradeamento do jardim aspirava-se como um perfume de felicidade.
 
Não era porém a felicidade, por assim dizer estúpida do vulgar, essa felicidade que a muita gente basta e que é feita só da ausência de desgostos.
 
Para alguns é suficiente esse bem-estar relativo, e a passividade da sua natureza encontra nessa espécie de feliz marasmo o bastante para lhe contentar a modesta fantasia.
 
Para as almas dʼélite, porém, é preciso mais, muito mais, e a satisfação intelectual, no que ela tem de mais puro e elevado, é-lhe absolutamente necessária.
 
Ali, naquela formosa habitação de Neully, vivia-se muito pelo espírito.
 
Eça de Queirós era na vida íntima verdadeiramente encantador. Só aqueles que viveram com ele podem bem dizer o conjunto de delicadeza, graça e bondade que o seu tracto íntimo revelava a todos os momentos.
 
É que nele as qualidades do coração estavam a par das da inteligência. No seu espírito havia um sentimento inato de justiça e uma bondade que nunca se desmentia. O pobre, o desvalido, tinha a certeza de encontrar nele um protector.
 
Eça de Queirós era bom, e no entanto muitos o temiam.
 
As suas ironias eram agudas e certeiras. Juvenal não as enjeitaria.
 
Feriam fundo como tagante manejado por rijo pulso.
 
A reputação de desapiedado ironista — bem justamente ganha — assustava, e muitos que em vida não ousariam responder-lhe se vingaram quando a morte veio selar aqueles lábios que tantas vezes um sorriso de supremo desdém aflorava.
 
Esses que sem bem o conhecerem o temiam não compreenderão, talvez, o que deixo dito, e — quem sabe! — o julgarão inspirado por uma cega amizade, ou pior ainda, pelo propósito de apresentar ao leitor uma personalidade de minha fantasia.
 
Nem uma coisa nem outra. Afirmo-o.
 
Repito: nem todos o amaram, porque muitos o não conheceram.
 
A ironia com que fustigava os ridículos era uma consequência do seu temperamento artístico.
 
Dele pode dizer-se que do berço ao túmulo passou neste mundo observando filosoficamente os homens e as coisas satirizando os ridículos, onde quer que os topasse. Depois havia uma tal originalidade no seu espírito, na sua maneira de sentir, que desconcertava o observador que se propusesse a adivinhá-lo por indução.
 
Daí um certo despeito; e há caracteres, felizmente não muito numerosos, que do despeito a um mais feio sentimento não demoram um passo.
 

*

 
Está ainda na memória de todos quanto o grande romancista foi um bom conversador. Mas se alguém julgar que esse prazer de manejar a palavra, com a ciência de quem lhe conhece todos os segredos, era o seu prazer dilecto, muito se engana.
 
Creio, pelo que muitas vezes lhe ouvi, que as horas passadas no silêncio do escritório, mesmo quando não trabalhava lhe não eram as menos agradáveis.
 
Como ainda agora me parece estar vendo esse escritório!
 
Um quarto amplo, quadrado, alumiado por quatro janelas, e todo forrado de estantes. A um lado um bufete grande, e sobre ele um magnífico tinteiro, e entre as mil coisas próprias de uma mesa de escrita, uma enorme palmatória de prata, trazida, creio que da Holanda, pelo seu amigo dilecto: o conde do Arnoso.
 
Ao outro lado uma carteira alta e esguia aonde ordinariamente escrevia de pé, pois a sua maneira de trabalhar era passeando ao mesmo tempo que vinha escrevendo o que no seu espírito se completava.
 
No meio das duas janelas da frente o fogão, sempre no Inverno aceso, apesar do calorífero que aquecia toda a casa, pois o romancista amava o delicado prazer de tisonner, essa incomparável maneira de sonhar acordado, vendo correr sobre o brasido tanta cena ideal!…
 
No escritório havia sempre flores, que Eça de Queirós, como todas as pessoas de gosto delicado, amava apaixonadamente, preferindo a todas os cravos, que lhe traziam sempre à memória Portugal.
 

20-02-1916, Conceição Eça de Melo


Segunda parte do artigo de Conceição Eça de Melo (num total de três), originalmente publicada na revista Alma Nova, Série II, Mar. 1916
N.º [15] 3 (Ficha histórica).